sábado, 15 de fevereiro de 2014

A Grande Cena ...



A Grande Cena ...
Por Elizabeth Rodrigues
Publicada em 15 de fevereiro de 2014, pelo
site Despertar da Luz Interior.



Áudio da Mensagem em vídeo


A peça foi grandemente anunciada.
Em todos os jornais, revistas e nas rádios, o assunto era a estreia da maravilhosa peça escrita por uma das autoras mais famosas de todos os tempos. E a expectativa pela estreia da peça não era por acaso.

A autora havia prometido uma grande surpresa.
Afirmou que preparara uma grande cena que ninguém jamais esqueceria.

No dia da estreia, os ingressos se esgotaram rapidamente.
Todos estavam curiosos para saber o que havia sido preparado de tão especial naquele espetáculo.

Na entrada do teatro, a autora da peça fez questão de cumprimentar a todos pessoalmente. Parada na porta, usando um lindo vestido branco, ela repetia a cada um que chegava às mesmas palavras: “Na verdade, eu só queria mostrar uma cena. Só essa cena tem importância para mim, mas seria estranho fazer um espetáculo com uma cena só, e então eu escrevi uma peça inteira apenas para que essa cena pudesse ser mostrada. Acredito que vocês vão gostar. Divirtam-se!”.

E logo ao entrar, os espectadores percebiam que não parecia haver nada de muito especial. O palco, sem as cortinas, mostrava um cenário relativamente pobre, composto apenas de algumas cadeiras e vários caixotes de madeira de tamanhos diferentes que se espalhavam ocupando todo o espaço disponível. Não havia nenhuma iluminação especial.

Curiosa, a plateia esperava para saber qual seria a grande surpresa.
Depois de alguns minutos, um grupo de 30 atores entrou em cena ao mesmo tempo pelas várias entradas do palco. Todos vestiam apenas um macacão branco, e não usavam maquiagem. Cada um deles se posicionou em uma daquelas cadeiras ou em um dos caixotes.

Apenas cinco atores não se sentaram.
Eles formaram um pequeno grupo que se posicionou de pé na frente do palco, em seu canto esquerdo, quase fora de cena.

A peça começou, e era uma grande comédia.
Todos na plateia riam sem parar ao ver as cenas, montadas em forma de esquetes, onde os atores em pequenos grupos mostravam de forma absolutamente hilária acontecimentos normais do cotidiano.

Todos os atores eram muito bons, e pareciam palhaços expondo os absurdos da vida humana. Todo o ridículo que um humano pode pensar em fazer estava exposto ali, e era muito divertido. Até o que deveria ser dramático se tornava engraçado na brilhante interpretação deles, a plateia inteira era uma enorme gargalhada.

Durante aqueles momentos, todos, velhos e jovens, homens e mulheres, todos eram iguais. Todos riam alegremente ao ver expostas suas próprias fraquezas de uma forma tão divertida, que até se esqueciam da possibilidade de que pudesse existir qualquer sofrimento do lado de fora daquele teatro.

E então veio o ponto alto da peça.
A famosa cena que a autora disse ter sido a causa de ela ter escrito todo aquele texto.

Era a última cena.
O final do espetáculo.

Um homem entrou no palco com um enorme cajado preto em uma das mãos. Era bem velho, tinha o cabelo muito branco, a própria imagem de um ancião.

Ele atravessou todo o palco, com passos lentos e firmes. Foi até o grupo de cinco atores que até então não tinha feito nada além de ficar de pé no canto do palco, sem dizer uma única palavra, sem fazer um único gesto. Apenas observando a peça e a reação da plateia.

Aquele ator, caracterizado como um ancião, ao chegar próximo ao grupo dos cinco atores, virou-se para a plateia, bateu com o cajado no chão e começou o seu monólogo:

“Este é o final tão esperado. Vocês vieram até aqui atraídos pela ideia de que haveria uma cena especial nesse espetáculo. Vocês acreditaram que uma simples cena foi capaz de levar alguém a escrever uma peça inteira. E vieram movidos pela curiosidade de saber o que haveria de tão grandioso nessa cena. Pois então aí está. Essa é a cena. Vocês, sentados na plateia, esperando por algo que não sabem o que é. Vocês assistindo alegremente às suas próprias tragédias, aos seus próprios medos, à sua própria miséria. O grande final desse espetáculo é apenas esse: não existe final. Tudo termina aqui, porque nada disso sequer começou. Esperavam por uma cena bombástica? Pois eu lhes digo, ela não existe. Jamais foi escrita. Jamais será. E esta noite, cada um de vocês provou de sua própria ingenuidade. Passaram horas assistindo a algo porque esperavam por uma grande cena. Mas que cena pode ser maior do que esta que está acontecendo agora? Vocês sentados aí, com suas expressões de surpresa ao saber que tudo não passou de mais uma ilusão. Porque não há nenhuma cena especial nesse espetáculo, a não ser aquela em que vocês se levantam e saem daqui sabendo que todas as tragédias podem ser vistas como comédia. Foi o que vocês assistiram hoje, e sei que muitos, a maioria, não entenderá nada disso. Esse espetáculo se encerra aqui, voltem para as suas casas, e não se esqueçam de dar os cumprimentos à autora por tão brilhante texto.”

E quando ele terminou de falar, todos os atores que estavam no palco se “desintegraram”. Diante dos olhos maravilhados e surpresos da plateia, eles sumiram e só ficaram os macacões brancos jogados no chão do palco, sem nada dentro. Apenas pedaços de pano vazios e sem vida.

Um silêncio profundo se seguiu, antes que os espectadores voltassem a si e começassem a sair do teatro.

Em silêncio, reflexivos.
Naquela noite algo definitivamente mudou para eles.
Mas levará ainda algum tempo até que essa mudança possa ser percebida em suas vidas.

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Publicação autorizada por Elizabeth Rodrigues
via: www.despertardaluzinterior.blogspot.com.br

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